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Francisco Maria de Sousa

LATOEIRO

Bebe um trago de cerveja, sem pressas, como se precisasse da demora para se revelar, numa sala acanhada do nº 2 da rua da Saudade, em Moura. Pousa a garrafa em cima da televisão e respira fundoantes de responder: «Sou latoeiro desde que me conheço por gente». E volta a debruçar-se sobre uma meia dúzia de almotolias que o ocupam desde o início da manhã, lançando assim a deixa para mais uma pergunta. A resposta não tarda: «O motivo é que não me ajeito a estar parado. Estou sempre trabucando». Chegou a altura de usar a fieira para fazer os debruns das peças. O trabalho leva jeito.

Francisco Maria de Sousa, mais conhecido por Chico de Alqueva, porque o pai era de aí, conta 73 anos (em 2001), é tendeiro a maior parte do tempo e latoeiro quando tem encomendas, o que significa de tempos a tempos. Além da alcunha, herdou do progenitor o amor pela latoaria. Saiu-se bem, afeiçoou a mão, e hoje faz as suas peças quase de olhos fechados.

Os cântaros para o transporte do leite, azeite e vinho, as enfusas para guardar azeite, as almotolias para o servirem à mesa, os ferrados para recolha do leite da ordenha, as cafeteiras, os funis, os cinchos para enformar o queijo e espremer o soro, as candeias de azeite e petróleo, os caldeiros, as caixas para refeições, os baldes, as panelas, as pás e os caiadores, tudo é motivo para exibir os seus dotes de mestre latoeiro. São obras em folha de Flandres, folha zincada ou chapa galvanizada, em que intervêm a tesoura para cortar o metal, o maço de madeira ou borracha para o bater, a bigorna e a trancha para fazer a curvatura das peças, o compasso de bicos, os alicates, a fieira para rematar os debruns, os ferros de solda e as limas. «Tudo isto ajuda, não digo que não, mas o mais importante é o trabalho das mãos. Aqui não há “mánicas”, nem há moldes, qual quê! É tudo a poder das nossas ideias e do jeito que a gente tem».

Sinal dos tempos, a arte da latoaria tem os dias contados, basta olhar para o deserto de candidatos a aprendizes. O Chico sabe-o bem, mas ainda não perdeu a esperança de vir a passar o testemunho a quem o queira desafiar para «uma empreitada dessas». Assim haja gente com lata para tanto.

Filipe Sousa (texto e fotos)

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