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Mouraria de Moura, bairro com vida

Uma cidadelha dentro da cidade maior

Do alto do castelo, a Mouraria oferece-se inteira. Espraia-se por três ruas, uma travessa e um largo na zona central onde desaguam os passos dos que procuram saber mais sobre a história do bairro. Invariavelmente, convergem para o nº11, em cujo interior pode ser visto um bocal de poço do século XIV. Trata-se de um raro vestígio material do passado islâmico conservado in situ em redor do qual se organiza o pequeno núcleo do museu de Moura dedicado a esse período.

Foi precisamente do castelo, do hisn islâmico, que vieram os primeiros ocupantes da mouraria, expulsos na sequência da reconquista da cidade, em 1232. Reinstalados pouco tempo depois no arrabalde a sudoeste da fortificação, os mouros agora sob domínio cristão (mudéjares ou mouros forros) passarão a gozar de relativa protecção durante praticamente dois séculos, conferida pelo ordenamento jurídico do foral de D. Dinis, de 1296.

Contando com uma população de escassas centenas de habitantes, a comuna viverá longo tempo fechada sobre si própria, confinada a uma espécie de guetto. Os homens são obrigados a envergar aljubas e albornozes e a ostentar um crescente ao peito, para se distinguirem dos cristãos. Compete-lhes a auto-suficiência da comuna. São sobretudo mesteirais: moldam ou tecem esteiras, tapetes, mantas, cobres, ferros, filigranas e olarias. Há ainda sapateiros, barbeiros, carniceiros, padeiros, alarifes e almoinheiros. Estes últimos trabalham em hortas de que são foreiros, na várzea do Ardila. Se o homem é o senhor da rua, o espaço recatado da casa é o mundo da mulher. Que só abandona aquando das suas deslocações furtivas e circunscritas ao cemitério, aos banhos públicos ou à mesquita, para a oração de sexta-feira. No interior da comuna coabitam os espaços cívico, religioso e mercantil, com os seus ambientes característicos e os seus protagonistas maiores: o alcaide (al-qaid), a autoridade máxima da comuna; o imã (al-imam), o chefe religioso; o almotacé (al-muthasib), o inspector do mercado.

Esta ordem, no entanto, tinha os dias contados, até ao golpe final desferido pelo édito de expulsão ou conversão forçada assinado por D. Manuel I, em 1496. Os conversos que permanecem na comuna assistirão à transformação da mouraria em bairro cristão. Em meados do século XVII, a construção das novas muralhas determina a sua demolição parcial com impactos importantes no conjunto edificado e nas formas arquitectónicas existentes.

Nesse tempo, os limites do bairro seriam, seguindo referências contemporâneas, a Rua da Estalagem a noroeste, em zona contígua à maqbara (cemitério), a rua de Santo António, a oeste, as ruas dos Lagares e do Cordovil, respectivamente a sul e a este, e a Praça Sacadura Cabral, a noroeste. Na prática significa acrescentar um quarteirão à delimitação tal como hoje a conhecemos: o ocupado pelo antigo edifício do Matadouro e futuro Museu Municipal.

Como sempre acontece, o tempo, esse escultor, encarregar-se-ia de sepultar muitas das marcas deixadas por esta civilização com cerca de sete séculos de presença contínua na cidade de Moura, algo que a nova arqueologia, conjugada com outros saberes, tem vindo a resgatar.

Sabemos, por exemplo, que as habitações que chegaram até aos nossos dias pouco têm a ver com a tipologia tradicional da casa islâmica, organizada em redor de um pátio, ou que, do traçado viário, se perdeu o rasto de ruas como as de Aly Pinto ou do Cabo da Mouraria. Constatamos ainda que o bairro viu desaparecer os seus últimos artesãos ainda não há duas décadas e se transformou lentamente num espaço habitacional, deslocando-se a actividade comercial para a periferia (Pç. Sacadura Cabral).

Apesar das mudanças, muito da memória continua vivo ou a insinuar-se na atmosfera pitoresca dos sítios e nos pequenos gestos do quotidiano.

Falam por si a luz da cal das paredes de taipa, as chaminés de escuta que por vezes cobrem toda a fachada, as ruas irregulares e estreitas, os quintais com poços e plantas de origem oriental (laranjeiras, limoeiros, figueiras, romãzeiras e nespereiras), a mistura de cores dos frutos e legumes na mercearia da Zélia, onde não falta o regateio das freguesas, a espiral dolente do cante alentejano que chega da taberna do Liberato, as tascas e os barbeiros com clientelas exclusivamente masculinas, os homens desocupados e tagarelas que encenam o ar displicente de quem só levanta um dedo se for para beber um copo de vinho ou um poejinho (versão alcoólica do chá de menta!), as vizinhas que não arredam das soleiras ou que espreitam pelos postigos sempre com a mira nas pequenas e grandes novidades, e que, no Verão, dão um ar de sua graça fazendo da rua a sua sala-de-estar, os forasteiros que se amesendam nas esplanadas para viver a animação dos mastros de S. João, com a bica de Santa Comba em fundo recriando a tentação do oásis.

Tudo isto, e mais o inefável, constitui a alma deste lugar especial. A Mouraria é um bairro vivido e afectivo. Com pessoas e estórias dentro. É uma cidadelha dentro da cidade maior. Uma qasbah baixa, pequeno labirinto de ruas e emoções onde nos perdemos com todo o prazer. E a que queremos, mais tarde ou mais cedo, pertencer.

Filipe Sousa

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